O poder que decide o país está além dos palanques

Por Beatriz Nóbrega – Poder 360

No mês da mulher, a discussão talvez não seja sobre quem aparece, mas sobre quem ajuda a decidir melhor o país.

Quando perguntada, em 1975, se sua vitória representava uma vitória pessoal ou uma vitória das mulheres, Margaret Thatcher respondeu com a secura que a caracterizava: “Ninguém vence sozinho. Nunca”. E acrescentou que aquela era a vitória de “alguém na política”.

Há mais verdade nessa frase do que o Brasil costuma admitir, porque o poder que decide o país raramente se esgota no palanque: ele se consolida no Legislativo, nos gabinetes, nos bastidores e naquele trabalho menos visível em que uma demanda social é convertida em texto, orçamento e prioridade.

Esse descompasso entre visibilidade e poder fica ainda mais evidente quando se olha para a presença feminina na política brasileira. As mulheres já representam mais de 52% do eleitorado, mas seguem ocupando menos de 20% das cadeiras do Congresso Nacional.  …

No ranking da União Interparlamentar de fevereiro de 2026, o Brasil aparece em 137º lugar na participação feminina na câmara baixa, abaixo da média global de 27,2% e atrás de países como México, Bolívia e Reino Unido.

O que isso revela não é falta de discurso, mas um atraso institucional persistente, que se mantém justamente num dos espaços mais decisivos para a vida concreta do país.

Talvez por isso o debate brasileiro sobre política ainda se deixe seduzir tanto pela liturgia do Executivo, como se o país fosse definido sobretudo por eleição majoritária, entrevista de televisão ou embate de personalidades. A experiência prática do poder mostra outra coisa.

É no Legislativo que uma ideia ganha forma normativa, que uma proteção entra ou sai do texto, que uma prioridade recebe ou perde recursos, que um setor avança ou trava. E é nos bastidores que esse processo se torna viável, porque é ali que se testa a redação, se mede impacto, se costura acordo, se evita erro e se transforma intenção em decisão.

É justamente por isso que a presença feminina nesse circuito precisa ser tratada com mais seriedade intelectual e menos superficialidade retórica. O ponto não está em opor homens e mulheres, muito menos em sugerir qualquer superioridade automática, mas em reconhecer que instituições públicas decidem melhor quando deixam de excluir metade da experiência social que deveria estar sentada à mesa.

Há, além disso, um aspecto que merece ser tratado com sobriedade. A literatura em neurociência e em estudos de liderança não autoriza caricaturas sobre “cérebros femininos” e “cérebros masculinos”, mas aponta diferenças médias em dimensões como cognição social, leitura de contexto, empatia e resposta ao risco.

Somadas a trajetórias de vida frequentemente marcadas por cuidado, gestão do tempo e administração cotidiana da escassez, essas variáveis ajudam a explicar por que tantas mulheres chegam à decisão pública com um olhar mais atento a contexto, consequência e execução. Na mesma direção, meta-análises sobre liderança mostram uma tendência feminina conectada a estilos transformacionais mais associados à coordenação, à mobilização de equipes e à efetividade.

É nesse ponto que o voto no Legislativo revela toda a sua importância. Escolher mais mulheres para esses espaços não é um gesto ornamental, nem uma concessão de linguagem; é uma decisão sobre a qualidade da inteligência que se quer à mesa da República, especialmente num país em que a política ainda confunde visibilidade com liderança e retórica com capacidade de entrega.

Só que essa conversa não se esgota na urna. Ela também exige que mais mulheres reconheçam que política não é apenas candidatura, palanque ou exposição pública. Política é formulação, articulação, redação legislativa, negociação, estratégia, relações governamentais, construção institucional e defesa qualificada de interesses. Há um contingente imenso de mulheres brilhantes que ainda não se enxerga nesse espaço, embora parte da vida pública já dependa justamente desse tipo de inteligência.

E isso importa porque interesses não se protegem sozinhos. Quem não aprende a se organizar politicamente acaba vivendo sob decisões formuladas por outros, segundo prioridades que quase nunca coincidem com a vida concreta de quem trabalha, cuida, empreende e sustenta a rotina do país. Ampliar a presença feminina nesses espaços não é cumprir tabela; é elevar o nível da deliberação pública e defender, com método e legitimidade, aquilo que efetivamente chega à ponta.

O Brasil não precisa de mais mulheres para decorar a política. Precisa de mais mulheres para aperfeiçoá-la por dentro, no Congresso, nos gabinetes, nas assessorias, nas relações institucionais e governamentais e nos espaços em que a decisão é construída.

No fim, países não são definidos por quem fala mais alto, mas por quem pensa melhor, articula melhor e entrega melhor. E, nesse campo, o Brasil ainda insiste em subaproveitar alguns de seus melhores líderes.

Reprodução de Poder 360 – Beatriz Nóbrega

Leia mais no texto original: https://www.poder360.com.br/opiniao/o-poder-que-decide-o-pais-esta-alem-dos-palanques/

Titulo

Tags :

Compartilhe :

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here